Parecia combinado. Sabia-se que o PSDB, partido da base do Governo.

Parecia combinado. Sabia-se que o PSDB, partido da base do Governo Michel Temer, estava dividido sobre aceitar ou não a denúncia contra o presidente por corrupção passiva. Na hora do voto, a divisão foi quase matemática: 22 deputados tucanos votaram pelo arquivamento, e 21 pelo aceitação da denúncia para que a denúncia contra Temer fosse avaliada no Supremo Tribunal.

Assim, com um pé em cada canoa, a legenda agora afina seu discurso para prestar contas dentro do Governo, onde tem quatro ministros, e fora dele, para seus eleitores. No Planalto, a leitura é clara. Se está ruim com o PSDB, pior seria sem ele. O diagnóstico feito por assessores do presidente Michel Temer (PMDB) mostra que, ao menos neste primeiro momento, os quatro ministros não devem ser apeados de seus cargos. Não é também o desejo da direção tucana, ao menos por enquanto.

Mas ficou mais do que explícita a divisão da cúpula partidária, que tem seus próprios incêndios para controlar, para além das farpas que recebe por aliar-se a um Governo que está sob suspeita de corrupção. O ninho tucano está rachado entre Aécio Neves e o senador cearense Tasso Jereissati, atual presidente interino da legenda. Aécio é investigado criminalmente e licenciou-se de suas funções partidárias, mas com força ainda para influenciar a posição mais conservadora de manter-se ao lado de Temer. De outro lado, Tasso, que assumiu a presidência do partido interinamente, hoje se mostra sem paciência com a gestão do PMDB.

Nesta quinta-feira, os dois senadores convocaram uma entrevista coletiva para anunciar que seguirão apoiando as reformas estruturantes (previdência, política e tributária) e que a prerrogativa de definir os ministros é exclusiva do presidente da República. “Essa questão de cargos e ministérios pertence ao presidente da República, que fará aquilo que achar mais adequado em relação aos cargos do PSDB. Isso não é uma preocupação que nós temos”, afirmou Aécio. Ao que foi complementado por Tasso: “Se ele [Temer] quiser tirar ministro, colocar ministro, não é problema nosso”.

No Palácio do Planalto, o discurso dos tucanos foi bem recebido, porque entendem que, mesmo diante de uma divisão, o Governo precisa dos votos deles para aprovar seus principais projetos no Legislativo. Um dos recados dados por Tasso foi o de que o partido cobrará de seus membros que votem a favor das pautas econômicas. “Em relação àquilo que for programático do partido nós vamos conversar com todos os setores do partido e vamos trabalhar juntos para que nós tenhamos votos homogêneos e maciços em torno desse projeto”, afirmou Tasso.

Os dois senadores ainda oficializaram que o mineiro se dedicará principalmente a se defender das acusações criminais que pesam contra ele na Justiça e, por isso, estará fora do comando partidário até o fim do ano, quando novas eleições ocorrerão para definir os rumos do partido. Até dezembro, o PSDB tentará passar por uma série de renovações. Quer mudar o discurso. Elegerá novos diretórios municipais e estaduais. Escolherá o sucessor da dupla Aécio-Tasso. E tentará ungir seu pré-candidato à presidência da República.

A troca de comando na cúpula do PSDB também agradou quem defende um rompimento com a gestão do PMDB. “A autonomia dada a Tasso é uma sinalização de paz do grupo governista do PSDB para nós, que defendemos o rompimento com o Temer e o PMDB”, afirmou o deputado Daniel Coelho (PSDB-PE), um dos líderes do movimento que há mais de três meses defende a cisão da aliança com os peemedebistas.

A hesitação do partido, contudo, desagrada outras freguesias. No fim do mês passado, um grupo de quatro renomados economistas filiados ao PSDB enviaram uma carta ao senador Tasso informando que pensaram em se desassociar da legenda, e só não o fizeram porque acreditaram na promessa de que uma convenção, convocada pelo presidente interino, poderia eleger um novo diretório nacional. Ainda assim, conforme revelou o jornal O Globo, criticaram a postura do partido. “Infelizmente, incapaz até agora de se dissociar de um governo manchado pela corrupção institucionalizada que herdou do PT, o PSDB tem optado por deixar vazio o centro político ético de que o país tanto precisa”. O documento era assinado por Gustavo Franco e Edmar Bacha, mentores do Plano Real, Elena Landau, ex-diretora do BNDES, e pelo professor Luiz Roberto Cunha.

Agora, mais do que garantir a sustentabilidade do presidente que ajudou a chegar no poder, a legenda tentará sobreviver, apesar do desgaste. Um sinal de que sua influência não é mais a mesma ficou clara quando os outros partidos da base de Temer não o seguiram. Entre os que transitam pelo Congresso Nacional era quase consenso de que, se o PSDB abandonasse Temer, as legendas docentrão, como PP e DEM, o seguiriam. Não foi o que ocorreu.

Os quatro ministérios tucanos (Relações Exteriores, Secretaria de Governo, Direitos Humanos e Cidades) hoje são cobiçadíssimos exatamente por esses partidos conservadores que, nos últimos anos, elegeram Eduardo Cunha (PMDB-RJ) presidente da Câmara e derrubaram Dilma Rousseff (PT) da Presidência da República.

Mais do que debater permanência no Governo, os tucanos estão preocupados com as eleições de 2018 e sua própria sobrevivência. Por enquanto, apenas o prefeito de São Paulo, João Doria, e o governador paulista, Geraldo Alckmin despontam como possíveis nomes. Se eles não chegaram em um consenso ou se outro nome aparecer na disputa, deverão ocorrer prévias para definir o nome do PSDB à presidência. Depois dos pedidos de prisão contra Aécio, seu nome é colocado como carta fora do baralho. Agora, a legenda está preocupada em se “reconectar com a sociedade”, como dizem 9 em cada 10 líderes do PSDB. Sabem que, se continuarem vinculados à gestão peemedebista, dificilmente terão sucesso eleitoral.

O sentimento é semelhante ao do deputado Daniel Coelho. Para ele, o partido só terá alguma chance eleitoral em 2018 caso reconheça que errou ao apoiar Temer e que mude sua atitude, defendendo o fim do atual modelo de presidencialismo de coalizão.

Fonte: El País

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